um rio do avesso

a river backwards

Talvez seja só a lembrança daquela ponte que eu atravessei tantas vezes, que passava por um rio que fluía ao contrário. É verdade. Queriam que o rio desembocasse no lago, e não o oposto. Embora a natureza já tivesse determinado que o lago desenbocava no rio, a prefeitura da cidade resolveu que em 1887, depois de uma epidemia de cólera e febre tifóide por conta do lixo jogado no lago, o rio seria virado do avesso. Eu cheguei na cidade cerca de pouco mais de cem anos depois e atravessei a ponte muitas vezes até descobrir que aquele rio corria pro lado errado.
Sempre que eu o atravessava acabava parando no meio da ponte pra olhar a água correndo e levando o lixo que se enroscava nas margens junto a peixes mortos e certo entulho industrial. Uma linha de trem cruzava o caminho pouco depois da ponte e embora eu nunca tivesse visto um trem de fato passar por ali, decidi que passava. Mesmo com uma grade enferrujada bloqueando os trilhos e um carrinho de supermercado cheio de roupas no meio dele.
Provavelmente por conta da minha vista ruim eu deduzi que o que poderia ser um grande pedaço de lona no meio das árvores era de fato uma barraca de camping, e que o carrinho de supermercado que ficava estacionado no meio dos trilhos pertencia à pessoa que morava na barraca, e que ela tentava resistir bravamente à revolução industrial.
Cada vez que eu passava pela ponte e observava certas nuances, como a agitação maior das águas ou uma quantidade menor de lixo, decidia que a pessoa da barraca de camping tinha relação direta com estas mudanças. Eu me apoiava nas grades da ponte e ficava ali por muito tempo, enquanto ela trincava e balançava com o passar dos carros e caminhões.
Aquela ponte atravessava o que era pra mim a parte mais viva da cidade inteira. Durante o inverno as águas do rio carregavam placas finas de gelo, que ficavam presas na margem onde o lixo acumulava, onde fantasmas andavam de trem e ocasionalmente pescavam.

Maybe it’s just the memory of that bridge I used to cross so many times, which crossed a river flowing backwards. It’s true. They wanted the river to flow into the lake and not the other way around. Even though nature had already determined that the lake should flow into the river, the city decided that in 1887, after an epidemics of cholera and typhoid fever due to the garbage thrown into the lake, the river would the be turned backwards. I arrived at the city about one hundred years later, and crossed that bridge many times until I realized the river was running backwards.
Every time I crossed it I ended up stopping in the middle of the bridge to look at the water running and taking away the trash that would tangle up at the border along with dead fish and some industrial debris. A train track crossed the way a bit after the bridge and although I’ve never seen an actual train passing by, I’ve decided it did anyway despite the rusted fence blocking the tracks and a shopping cart full of clothes in the middle of it.
Probably due to my bad sight I’ve assumed what was a large piece of old canvas in the middle of the trees to be a camping tent, and that the shopping cart parked in the middle of the tracks belonged to the person who lived in the tent and that he or she was trying to bravely resist the industrial revolution.
Each time I’d cross that bridge and notice certain nuances, such as an agitation in the waters or lesser quantity of garbage, I’d decide that the person in the tent had a direct relation to such changes. I’d lean on the fence of the bridge and stay there for a long time, while it creaked and swung as cars and trucks passed by.

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