uma rotina bem-vinda

a much welcomed routine

Tem todas aquelas coisas que a gente faz quando acorda: lava o rosto, escova o dente, escuta as notícias no rádio enquanto toma café da manhã (no meu caso), enfim os pequenos rituais diários. Aquilo que a gente reclama que tem que fazer sempre, a droga da rotina, não agüento mais e tal, mas que eu acho que trazem muito mais conforto do que a gente imagina.
Acho que é isso que me faz falta no desenho, porque por exemplo na pintura existe um ritual de preparar a tinta e misturar cores e isso sem falar nos artistas que esticam as próprias telas e fazem a tinta. Já o desenho está lá, basta desenrolar o papel, abrir o nanquim e pronto. E confesso, que tem dias que o desenho não acontece, ou porque as mãos não estão firmes, ou porque o dia está frio demais, ou calor demais, e choveu, e você comeu alguma coisa estranha e na verdade seria melhor sair e tomar um café.
Deve ser por isso que eu voltei a me encantar pela gravura, e pode parecer besteira pra algumas pessoas explicar, mas já vi muita gente sem saber que nome dar a um desenho, e acabam chamando de “gravura.”
Bom, a gravura é uma reprodução, feita a partir de uma matriz. Ou seja, o desenho é feito em uma superfície que não é o papel (pode ser chapa de cobre, alumínio, pedaço de madeira, linóleo, pedra e por aí vai). Cada superfície tem o seu processo de gravação (na madeira, por exemplo, você cava o desenho), e a partir disso você reproduz uma série de gravuras impressas no papel.
Desenho original, aquele que eu fiz com as minhas mãos no papel, não é gravura.
Na gravura em metal, tem um monte de etapas até você ver o trabalho finalizado. Chanfrar (arredondar as bordas da placa), polir, cobrir de verniz, queimar, enfim muitos e muitos passos antes do desenho ser riscado na chapa. E muitos passos depois também, até a impressão final. Eu tenho passado algumas tardes da semana no ateliê de gravura do Lasar Segall, um lugar que parece ter parado no tempo no melhor sentido. Ele acaba atraindo só as pessoas que tem um compromisso real com a gravura, o que cria um ambiente legal de trabalho. Confesso que acho saudável uma pausa da solidão eterna do desenhar no papel pra dividir uma bancada, uma prensa e o próprio trabalho com outras pessoas. Fora que o Cavalinho (meu gato) deve ficar feliz de se ver livre de mim por algumas horas do dia.

All of those things that we do when we wake up, such as washing the face, brushing the teeth, listening to the news on the radio (in my case), all of the little daily rituals. That stuff we complain we must always do, that damn routine, I can’t take it anymore and all, but I believe they do bring a great sense of comfort to us.
I think that’s what I miss in drawing, because for instance in painting there’s a ritual of preparing the paint and mixing the colors, not to speak of the artists who stretch their own canvasses and make their paint. The drawing is there already, you just have to unroll the paper, open the bottle of ink and that’s it. And I must confess, there are days where the drawing just doesn’t happen, either because the hands are not firm enough, or it’s too cold outside, or too warm, and it rained, and you have eaten something strange and it would actually be nice to go outside and have some coffee.
That must be why I’m delighted by printmaking again, and it might be silly to some people my having to explain it, but I’ve seen lots of people who don’t know how to call a drawing and they end up calling it a “print.”
Well the print is a reproduction, made from a mold. In other words, the drawing is marked on a surface other than paper (it may be a copper plate, aluminum, a piece of wood, linoleum, stone, and so forth). Each surface has its own process and marking (on wood, for instance, you carve away the drawing), and from that you reproduce a series of prints on paper.
An original drawing, the one I’ve made with my own hands on paper, is not a print.
There are a lot of steps on etching until you see the finalized piece. Chamfering, filing, polishing, varnishing, burning, many many steps before the drawing is etched on the plate. And many steps after as well, until the final impression. I have been spending some afternoons at the Printmaking Shop Lasar Segall, a place which seems to have stopped in time in the best possible way. It attracts only the people who are really committed to printmaking, creating a great work environment. I must confess that I find it healthy to pause from the eternal loneliness of drawing to share a work table, a press and your own work with other people. Not to mention that Cavalinho (my cat) must be happy to be rid of me for a few hours.

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