nossas muitas casas

our many houses

Quando eu lembro da minha casa de infância lembro de cada canto que eu ficava, e de coisas peculiares como uma torneira que era um pouco torta, de como a sala era sempre fria e um ralo grande que estava quebrado no corredor de fora, e a gente tinha que desviar do buraco quando passava. A verdade é que toda vez que volto na casa da minha mãe, essa mesma casa, continuo procurando por essas coisas, e fazendo os mesmos gestos que fazia, inclusive o de tomar cuidado quando passo pelo ralo (já há muito tempo arrumado) do corredor de fora. Só me dei conta disso lendo o livro que eu não me canso de ler, “A Poética do Espaço,” de Gaston Bachelard, porque ele fala dentre outras coisas da importância da casa, por ser o nosso canto no universo.
Casas sempre me chamaram a atenção e vez ou outra desenho uma casa porque me impressiono muito com elas. Especialmente as casas antigas, fechadas ou abandonadas, com as histórias contidas dentro delas. Fico imaginando como elas são dentro e quem morou lá. Quando você desenha, tem a ilusão de que está de alguma forma congelando o tempo.
Difícil também é ver uma casa que fez parte na nossa infância ser desmontada, pouco a pouco, descaracterizada, esvaziada. Nas paredes vazias ficam as marcas dos objetos que uma vez já estiveram lá por muito tempo. Pode parecer sentimentalismo, mas foi um tanto quanto inquietante para o meu imaginário infantil presenciar a desmontagem gradual da casa que uma vez foi do meu avô.
Este post é dedicado à memória dele, e à todas as casas que já foram nossas.

When I remember my childhood house I remember each corner I used to stay, and peculiar things such as a faucet that was a little crooked, the way the living room was always cold, and a large drainer in the outside hallway, which was broken and we always had to jump over it. The truth is that each time I go back to my mother’s house, that same house, I keep on looking for these things, and making the same gestures I used to, such as being aware of the drainer (fixed a long time ago) outside every time I walk over it. I’ve realized this by reading a book I never tire of reading, “The Poetics of Space,” by Gaston Bachelard, because among other things, he talks about the importance of the house, our corner in the universe.
Houses have always caught my attention and every once in a while I draw one because I’m very impressed by them. Specially the old ones, closed or abandoned, with history contained inside. I imagine how they’re inside and who’s lived there. When you draw you’re under the illusion that you are freezing time somehow.
It’s also hard to see a house which was part of your childhood being dismantled, little by little, disfigured, emptied out. The empty walls are left with the marks of the objects that have once been there for a long time. It may sound sentimental, but it was rather unsettling to my childhood imaginary to witness the gradual dismantlement of the house which has once belonged to my grandfather.
This post is dedicated to his memory, and to all of the houses that have once been our own.

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