palavras poéticas

poetic words

1892

Tive a honra de receber este belíssimo texto de das mãos de Marcia Tiburi, para apresentar a exposição.
I’ve had the honor to receive this beautiful text from the hands of Marcia Tiburi, to introduce the exhibition.

Thais Beltrame, guardiã de nosso recuo

O que primeiro chama nossa atenção nos desenhos de Thais Beltrame são as crianças. Junto delas, as árvores, os animais, uma casa. E a primeira impressão é de um mundo de delicadeza em que poderemos passear e esquecer dos medos, das obrigações, dos vícios. Como se alguém nos convidasse a comer um doce, paramos para descansar.

O estranho deserto em que somos adultos ainda não começou. Tudo parece travessia e, ao mesmo tempo, a sensação é de um recuo possível. Um mundo perdido de um tempo atrás está a salvo, resguardado.

Então olhamos um pouco mais. A infância, verdade absoluta de quem permanece sobre a terra, arrebenta como o segredo da semente na umidade calorosa que promete o que há de vir. Não há garantias. Os segundos, antes calados na experiência amorfa da vida diária, devoram nossos olhos vagarosamente. A delicadeza de antes é véu de seda para quem ainda não percebeu o pesado veludo que reveste a existência.

O tempo, miasma sutilíssimo, pede-nos que entremos na madrugada. É noite na experiência vivida em que nunca fomos senão a impressão de um encantamento. A atenção, essa virtude infantil que perdemos um dia, está prestes a ser recuperada.

Com um olho só, tendo o outro na mão a ser guardado no bolso, vigiamos o pensamento. Talvez não sejam crianças e não atravessem um mundo inóspito. Talvez não estejam sós, como nós possivelmente não estamos. Então, por que a vida é o cenário onde se traça um mistério, o brilho claro sob as árvores, e antes delas, ilumina o escuro desde há muito carregado dentro de cada um de nós. Um outro, miúdo, quase escondido, pede quietude, abre-nos uma porta. E, conquistada a paragem silenciosa do instante, sugere passagem.

O que por fim chama a atenção reencontrada entre as sombras da floresta, como uma pétala no meio do caminho, um pássaro que voa para trás, é a pequena porta que ficou no tempo de antes, cuja chave perdemos.

 Thais Beltrame é a guardiã que detém a chave sem a qual somos caule seco de uma árvore morta, uma folha em vão, ossos descarnados do animal em pé. Eterna viagem sem rumo.

A chave tem o nome de beleza. Está acessível a quem, com as lentes cinzentas que – escondendo – mostram o dia, descobre que o mundo é um desenho invadindo o instante finito a que chamamos vida.

Podemos, assim, atentos como nunca, e em direção ao nunca, recomeçar.

Thais Beltrame, guardian of our retreat

What first draws our attention to the drawings of Thais Beltrame are the children. Next to them, the trees, the animals, a house. And the first impression is of a world of delicacy where we will be able to walk and forget the fears, the obligations, the addictions. As if someone invited us to eat a sweet, we stop to rest.

The strange desert where we are adults has not yet started. Everything seems like crossover and at the same time, the sense of retreating is possible. A lost world from a while ago is safe guarded.

Then we look a little further. Childhood, absolute truth of those who remain on earth, bursts as the secret of the seed in warm moisture that promises what is yet to come. There are no guarantees. The seconds, quiet before the amorphous experience of everyday life, slowly devour our eyes. The delicacy of before is a silk veil to those who have not realized the heavy velvet which encloses existence.

Time, most subtle miasma, asks us to enter dusk. It is night in the experience that we have never been but the impression of an incantation. The attention, this virtue from childhood we have lost someday, is about to be reclaimed.

With only one eye, having the other in hand about to be kept in the pocket, we watch the thought. Maybe they are not children and they do not cross a inhospitable world. Maybe they are not alone, as we possibly are not. So why is life the scenario where a mystery is drawn, the light glisten under the trees, and before them, the darkness carried within each of us for so long is illuminated. Another child, almost hidden, asks for quietness, opens us a door. And then, when the silent stoppage of the moment is conquered, passage is suggested.

What finally draws rediscovered attention among the shadows of the forest, like a petal in the middle of the way, a bird flying backwards, is the little door that stood in the time of before, which key we have lost.

Thais Beltrame is the guardian who holds the key without which we are the dried stem of a dead tree, a leaf in vain, fleshless bones of the standing animal. Eternal aimless journey.

The key holds the name of beauty. It is accessible to those with gray lenses that – hiding – reveals the day, discovers that the world is one drawing invading the finite moment we call life.

We can thus attentive as ever, and toward ever, start anew.

 

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